sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago

Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne e sangra todo dia.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Naquele aquário em Pequim a maior atração era o tubarão que se montava de golfinho.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O último dia de Borges


Borges já tem oitenta e seis anos e não enxerga há tempos. Seus olhos agora são os cheiros e os sons que roçam sua pele, produzindo sensações e evocando lembranças guardadas nos escaninhos da memória. Todos os dias vai até a janela da sala e sente a vida que acontece na rua. O vento é o mensageiro que reproduz o movimento lá de fora nos pelos de seu corpo. Hoje, o vento não trouxe a vida até o velho poeta. A morte chegou antes oferecendo mais que cheiros e sons. Ela o levou com a promessa de dar a ele o horizonte, não apenas uma janela.

domingo, 30 de maio de 2010

Jade


Eu o conheci numa viagem que fiz a Salvador. Foi num desses feriados que de tão longo parecem férias. Era a minha segunda vez na Bahia. A primeira foi há muito tempo atrás. Nem quero lembrar quando foi. Estou em processo de reabilitação da minha compulsão de viver do passado.

Pois bem, andava eu distraída nas ruas de paralelepípedos encharcados de urina, suor, cerveja e dendê. Eu me perguntava onde estaria o tal cheiro de cravo e canela. Isso deve ser coisa que só poetas e escritores chapados sentem. Meus olhos contemplavam a arquitetura local quando surgiu à minha frente aquilo que, sem dúvida, deveria ser a maior atração turística do local: um homem negro, cabeça raspada, alto, braços fortes, um impávido colosso. Finalmente, encontrei um jeito de usar isso. E o sorriso? Salve simpatia! E ele ali sorrindo, provavelmente reconhecendo aquela expressão que estava estampada no meu rosto. Já devia estar acostumado com isso. Tive vontade de sair correndo, mas sustentei o olhar e sorri também. Pensa rápido, pensa rápido. Fala com ele. Encontra uma desculpa qualquer para justificar o approach.

- Boa tarde! - Falei sem saber o que diria depois.

- Boa! – Boa? Isso era uma resposta ou um adjetivo pra mim? Não viaja. Fala logo.

- Olha, eu estou doida para dar pra você. Você poderia acolher o que estou sentindo e me levar para algum lugar qualquer onde a gente possa transar pelo resto da vida? – isso era o que eu queria ter dito. Mas, mantive a pose de moça-classe-média-do-rio-janeiro. No lugar disso, grunhi umas palavras: - Onde posso comer por aqui? - Comer?! Agora ele já sabe o que eu estou mesmo querendo com ele.

- Depende do que você quer comer. - O desgraçado sabia.

- Bem, quero experimentar algo típico daqui. – Agora abri a porteira mesmo. Vou em frente. – Você me acompanharia? – Disse isso e me senti ridícula e atirada.

- Olhe, eu já almocei. Mas, se me disser onde está hospedada, posso te levar para jantar. O que acha? – Ele disse isso mesmo ou estou alucinando?

- Como?! – Acho que eu falei isso com um ar de tonta.

- Jantar. Quer jantar comigo? - O tal sorriso escancarado estava ali para provar que era verdade.

Não pensei duas vezes e já fui passando meu nome, endereço, o celular e tudo que podia garantir que ele me acharia. Nós nos despedimos e eu saí flanando pelas ruas da cidade.

À noite, eu me preparava para o que parecia ser a noite mais excitante da minha vida quando o telefone do quarto tocou.

- Senhora, o senhor Jade a aguarda na recepção. – Jade?! Que diabo de nome é esse para um homem?

- Já estou descendo. – Respondi isso ainda surpresa. Afinal, Jade não é feminino? Que pais são esses que escolhem um nome assim para o filho?

Desci e lá estava ele vestido de linho branco. O contraste do branco com sua pele era divino e seu sorriso mostrava os dentes incríveis. Aquele era, sem sombra de dúvida, um conjunto harmonioso.

- Olá! – Disse isso tentando parecer descontraída. – Ele veio e me beijou delicadamente a bochecha.

- Vou te levar para o lugar mais quente aqui de Salvador.

E existe lugar mais quente do que esse aqui e agora? Pensei e sorri para ele. E quando me dei conta, já estava lá livre e louca, dançando num barracão cheio de gente alegre, com aquele homem lindo. Dançando, suando, beijando e logo implorando para ele me levar pra outro lugar. Acabamos na casa dele. Só lembro que era azul e que um homem nos cumprimentou na calçada. Ali na sua cama ele me ensinou como se faz para ser feliz com um homem daquele. Ele era grande e doce. Cheirava a cravo e canela. Meu Deus! Estou chapada também! No final de tudo, beijou-me de um jeito tão delicado que naquele momento eu aceitaria bem a morte e descansaria em paz. Olhou pra mim e sorriu. Ele tinha os olhos verdes. Lindos olhos cor de jade. Retribui o sorriso e sussurrei feliz porque tudo ali era perfeito.

- Jade... Jade. Que nome lindo você tem.

sábado, 29 de maio de 2010

Caio Fernando Abreu

Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Quando o pai do pai do meu pai



Texto de Gilberto Reis

Quando o Pai do Pai do Pai do meu Pai tinha uma tarefa difícil a cumprir, dirigia-se a um certo lugar na floresta, fazia uma fogueira e lançava-se numa oração silenciosa.
Quando mais tarde o Pai do Pai do meu Pai se encontrou perante a mesma tarefa, dirigiu-se ao mesmo lugar da floresta e disse: já não sabemos fazer uma fogueira, mas ainda sabemos rezar.
Mais tarde o Pai do meu Pai viu-se perante a mesma tarefa. Foi ele também à floresta e disse:já não sabemos fazer fogueiras, já não conhecemos os mistérios da oração, mas sabemos em que ponto da floresta é que isso se passou.
Quando a vez do meu Pai chegou, disse:
já não sei fazer a fogueira, nem orar, nem o lugar na floresta,
mas sei contar a história e isso deve bastar.
E bastou.
Quando me vi perante a mesma tarefa já não sabia contar a história.

sábado, 24 de abril de 2010

A gota que falava transbordou no copo que calava.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Já passou, meu bem.


O parque bem aqui ao lado me faz lembrar que preciso escolher alguém sobre quem escreverei algo. Olho pela janela do carro, mas não vejo ninguém. A chuva assustou as pessoas. No rádio, a voz de Paul Weller acompanha o meu olhar. Adoro Paul Weller. Sei que você está ali num daqueles prédios de apartamentos se preparando para sair. Conheço essa tua rotina. Mudo de idéia e decido ir embora, mas é tarde, você já está parado lá. Vejo você, mas você não pode me ver. Adoro películas de proteção. Agora você está aí sozinho, parado na esquina molhada. Conheço essa esquina. Lembra, foi nela que um dia a gente jurou que também era para sempre. O que a insensatez uniu o homem não separe. Aí também você disse para eu ir embora e depois segurou minha mão. Fica. Não falava a sério. E agora você está aí sozinho, molhado na esquina parada.

Então é isso, é sobre nós que vou escrever? You do something to me rolando no rádio. Odeio Paul Weller. Nosso amor começou clandestino. A princípio, nos escondíamos do mundo; depois de nós mesmos. Dois clandestinos naquele teu escritório branco. Odeio paredes brancas. Lá tudo era sem graça, menos você. Ah, você... Você era do tipo que abria a porta do carro. Quando ganhamos o “Green card”, eu fui até a tua casa. Entrei pela porta da frente naquela sala bege. Odeio paredes beges. Lá tudo era sem graça, inclusive você. Abria a porta do carro, mas não a do coração. Pisando no chão de pedra do teu quarto senti frio. Quis ir embora, mas nem sei por que fiquei. Na realidade, nunca soube a razão desse amor. Quando eu estava sozinha, sentia saudade de você. Quando estava com você sentia saudade de mim. Soa patético. E é. Assim como aqueles teus docksides tão anos 80.

Vejo você atravessando a rua. Eu aqui parada. O tempo passando pela gente nesta esquina parada. A vida parada por um momento. Os teus cabelos agora são brancos, eu já não sinto mais saudades e o Tom Waits rolando no rádio me faz lembrar que já passou, meu bem. Adoro Tom Waits.