segunda-feira, 26 de julho de 2010

Felicidade

 ‎"Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer." (Mia Couto)

domingo, 27 de junho de 2010

Agoraísmo

Li um texto de Jacqueline Sobral sobre a necessidade contemporânea de rapidez e velocidade nos serviços. Um novo termo foi inventado para definir essa pressa: nowism . Numa tradução literal é algo como "agoraísmo". É um texto voltado para as questões do mundo corporativo e o objetivo da autora era fazer uma crítica às empresas que vão na contramão do atual nowism.  
Pelo viés da minha profissão, a leitura acabou inspirando algumas reflexões sobre a pressa nas relações humanas hoje. A lógica do "agoraísmo"  determina que, se tudo passa rápido, então é preciso valorizar as experiências do presente, "viver o momento". É o "aqui e agora" vivido segundo a lógica do consumo: "se a sensação é boa, o consumo é imediato". Qual o resultado desse imediatismo nas relações? Uma das coisas que me ocorreu é a produção da necessidade de uma resposta rápida a uma demanda individual. Se o outro demora demais a dar respostas é cobrado ou imediatamente descartado. O tempo do outro não importa, as necessidades do outro não interessam. "Quero tudo ao mesmo tempo agora". Num mundo caótico onde as regras sociais para uma boa convivência são confusas, fica difícil saber quem está desrespeitando quem. 
Todos têm pressa. Quem quer ter que esperar muito pela resposta ao torpedo, ao e-mail, ao recado deixado na secretária eletrônica? Havia um tempo em que não existiam carros. Havia um tempo em que aviões não cruzavam os céus. Havia um tempo em que não existia telefone, televisão e micro-ondas. Havia um tempo em que se esperava dias e dias pela resposta à carta de amor enviada. Talvez, tenha havido um tempo em que um chá de camomila era o suficiente para aplacar a ansiedade. Hoje, nem Rivotril dá conta. Tristes dias. 

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago

Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne e sangra todo dia.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Naquele aquário em Pequim a maior atração era o tubarão que se montava de golfinho.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O último dia de Borges


Borges já tem oitenta e seis anos e não enxerga há tempos. Seus olhos agora são os cheiros e os sons que roçam sua pele, produzindo sensações e evocando lembranças guardadas nos escaninhos da memória. Todos os dias vai até a janela da sala e sente a vida que acontece na rua. O vento é o mensageiro que reproduz o movimento lá de fora nos pelos de seu corpo. Hoje, o vento não trouxe a vida até o velho poeta. A morte chegou antes oferecendo mais que cheiros e sons. Ela o levou com a promessa de dar a ele o horizonte, não apenas uma janela.

domingo, 30 de maio de 2010

Jade


Eu o conheci numa viagem que fiz a Salvador. Foi num desses feriados que de tão longo parecem férias. Era a minha segunda vez na Bahia. A primeira foi há muito tempo atrás. Nem quero lembrar quando foi. Estou em processo de reabilitação da minha compulsão de viver do passado.

Pois bem, andava eu distraída nas ruas de paralelepípedos encharcados de urina, suor, cerveja e dendê. Eu me perguntava onde estaria o tal cheiro de cravo e canela. Isso deve ser coisa que só poetas e escritores chapados sentem. Meus olhos contemplavam a arquitetura local quando surgiu à minha frente aquilo que, sem dúvida, deveria ser a maior atração turística do local: um homem negro, cabeça raspada, alto, braços fortes, um impávido colosso. Finalmente, encontrei um jeito de usar isso. E o sorriso? Salve simpatia! E ele ali sorrindo, provavelmente reconhecendo aquela expressão que estava estampada no meu rosto. Já devia estar acostumado com isso. Tive vontade de sair correndo, mas sustentei o olhar e sorri também. Pensa rápido, pensa rápido. Fala com ele. Encontra uma desculpa qualquer para justificar o approach.

- Boa tarde! - Falei sem saber o que diria depois.

- Boa! – Boa? Isso era uma resposta ou um adjetivo pra mim? Não viaja. Fala logo.

- Olha, eu estou doida para dar pra você. Você poderia acolher o que estou sentindo e me levar para algum lugar qualquer onde a gente possa transar pelo resto da vida? – isso era o que eu queria ter dito. Mas, mantive a pose de moça-classe-média-do-rio-janeiro. No lugar disso, grunhi umas palavras: - Onde posso comer por aqui? - Comer?! Agora ele já sabe o que eu estou mesmo querendo com ele.

- Depende do que você quer comer. - O desgraçado sabia.

- Bem, quero experimentar algo típico daqui. – Agora abri a porteira mesmo. Vou em frente. – Você me acompanharia? – Disse isso e me senti ridícula e atirada.

- Olhe, eu já almocei. Mas, se me disser onde está hospedada, posso te levar para jantar. O que acha? – Ele disse isso mesmo ou estou alucinando?

- Como?! – Acho que eu falei isso com um ar de tonta.

- Jantar. Quer jantar comigo? - O tal sorriso escancarado estava ali para provar que era verdade.

Não pensei duas vezes e já fui passando meu nome, endereço, o celular e tudo que podia garantir que ele me acharia. Nós nos despedimos e eu saí flanando pelas ruas da cidade.

À noite, eu me preparava para o que parecia ser a noite mais excitante da minha vida quando o telefone do quarto tocou.

- Senhora, o senhor Jade a aguarda na recepção. – Jade?! Que diabo de nome é esse para um homem?

- Já estou descendo. – Respondi isso ainda surpresa. Afinal, Jade não é feminino? Que pais são esses que escolhem um nome assim para o filho?

Desci e lá estava ele vestido de linho branco. O contraste do branco com sua pele era divino e seu sorriso mostrava os dentes incríveis. Aquele era, sem sombra de dúvida, um conjunto harmonioso.

- Olá! – Disse isso tentando parecer descontraída. – Ele veio e me beijou delicadamente a bochecha.

- Vou te levar para o lugar mais quente aqui de Salvador.

E existe lugar mais quente do que esse aqui e agora? Pensei e sorri para ele. E quando me dei conta, já estava lá livre e louca, dançando num barracão cheio de gente alegre, com aquele homem lindo. Dançando, suando, beijando e logo implorando para ele me levar pra outro lugar. Acabamos na casa dele. Só lembro que era azul e que um homem nos cumprimentou na calçada. Ali na sua cama ele me ensinou como se faz para ser feliz com um homem daquele. Ele era grande e doce. Cheirava a cravo e canela. Meu Deus! Estou chapada também! No final de tudo, beijou-me de um jeito tão delicado que naquele momento eu aceitaria bem a morte e descansaria em paz. Olhou pra mim e sorriu. Ele tinha os olhos verdes. Lindos olhos cor de jade. Retribui o sorriso e sussurrei feliz porque tudo ali era perfeito.

- Jade... Jade. Que nome lindo você tem.

sábado, 29 de maio de 2010

Caio Fernando Abreu

Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Quando o pai do pai do meu pai



Texto de Gilberto Reis

Quando o Pai do Pai do Pai do meu Pai tinha uma tarefa difícil a cumprir, dirigia-se a um certo lugar na floresta, fazia uma fogueira e lançava-se numa oração silenciosa.
Quando mais tarde o Pai do Pai do meu Pai se encontrou perante a mesma tarefa, dirigiu-se ao mesmo lugar da floresta e disse: já não sabemos fazer uma fogueira, mas ainda sabemos rezar.
Mais tarde o Pai do meu Pai viu-se perante a mesma tarefa. Foi ele também à floresta e disse:já não sabemos fazer fogueiras, já não conhecemos os mistérios da oração, mas sabemos em que ponto da floresta é que isso se passou.
Quando a vez do meu Pai chegou, disse:
já não sei fazer a fogueira, nem orar, nem o lugar na floresta,
mas sei contar a história e isso deve bastar.
E bastou.
Quando me vi perante a mesma tarefa já não sabia contar a história.