Um espaço para dar palpites e vexames. Qualquer semelhança com a vida real... vocês já sabem o resto.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
O último dia de Borges
domingo, 30 de maio de 2010
Jade

Pois bem, andava eu distraída nas ruas de paralelepípedos encharcados de urina, suor, cerveja e dendê. Eu me perguntava onde estaria o tal cheiro de cravo e canela. Isso deve ser coisa que só poetas e escritores chapados sentem. Meus olhos contemplavam a arquitetura local quando surgiu à minha frente aquilo que, sem dúvida, deveria ser a maior atração turística do local: um homem negro, cabeça raspada, alto, braços fortes, um impávido colosso. Finalmente, encontrei um jeito de usar isso. E o sorriso? Salve simpatia! E ele ali sorrindo, provavelmente reconhecendo aquela expressão que estava estampada no meu rosto. Já devia estar acostumado com isso. Tive vontade de sair correndo, mas sustentei o olhar e sorri também. Pensa rápido, pensa rápido. Fala com ele. Encontra uma desculpa qualquer para justificar o approach.
- Boa tarde! - Falei sem saber o que diria depois.
- Boa! – Boa? Isso era uma resposta ou um adjetivo pra mim? Não viaja. Fala logo.
- Olha, eu estou doida para dar pra você. Você poderia acolher o que estou sentindo e me levar para algum lugar qualquer onde a gente possa transar pelo resto da vida? – isso era o que eu queria ter dito. Mas, mantive a pose de moça-classe-média-do-rio-janeiro. No lugar disso, grunhi umas palavras: - Onde posso comer por aqui? - Comer?! Agora ele já sabe o que eu estou mesmo querendo com ele.
- Depende do que você quer comer. - O desgraçado sabia.
- Bem, quero experimentar algo típico daqui. – Agora abri a porteira mesmo. Vou em frente. – Você me acompanharia? – Disse isso e me senti ridícula e atirada.
- Olhe, eu já almocei. Mas, se me disser onde está hospedada, posso te levar para jantar. O que acha? – Ele disse isso mesmo ou estou alucinando?
- Como?! – Acho que eu falei isso com um ar de tonta.
- Jantar. Quer jantar comigo? - O tal sorriso escancarado estava ali para provar que era verdade.
Não pensei duas vezes e já fui passando meu nome, endereço, o celular e tudo que podia garantir que ele me acharia. Nós nos despedimos e eu saí flanando pelas ruas da cidade.
À noite, eu me preparava para o que parecia ser a noite mais excitante da minha vida quando o telefone do quarto tocou.
- Senhora, o senhor Jade a aguarda na recepção. – Jade?! Que diabo de nome é esse para um homem?
- Já estou descendo. – Respondi isso ainda surpresa. Afinal, Jade não é feminino? Que pais são esses que escolhem um nome assim para o filho?
Desci e lá estava ele vestido de linho branco. O contraste do branco com sua pele era divino e seu sorriso mostrava os dentes incríveis. Aquele era, sem sombra de dúvida, um conjunto harmonioso.
- Olá! – Disse isso tentando parecer descontraída. – Ele veio e me beijou delicadamente a bochecha.
- Vou te levar para o lugar mais quente aqui de Salvador.
E existe lugar mais quente do que esse aqui e agora? Pensei e sorri para ele. E quando me dei conta, já estava lá livre e louca, dançando num barracão cheio de gente alegre, com aquele homem lindo. Dançando, suando, beijando e logo implorando para ele me levar pra outro lugar. Acabamos na casa dele. Só lembro que era azul e que um homem nos cumprimentou na calçada. Ali na sua cama ele me ensinou como se faz para ser feliz com um homem daquele. Ele era grande e doce. Cheirava a cravo e canela. Meu Deus! Estou chapada também! No final de tudo, beijou-me de um jeito tão delicado que naquele momento eu aceitaria bem a morte e descansaria em paz. Olhou pra mim e sorriu. Ele tinha os olhos verdes. Lindos olhos cor de jade. Retribui o sorriso e sussurrei feliz porque tudo ali era perfeito.
- Jade... Jade. Que nome lindo você tem.